AS APROPRIAÇÕES DA OBRA DE PIERRE BOURDIEU NO CAMPO EDUCACIONAL BRASILEIRO

PEREIRA, Gilson R. de M. (UERN)

CATANI, Denice B. (FEUSP)

CATANI, Afrânio M. (FEUSP)

RESUMO. A partir de pesquisa realizada em 20 revistas especializadas em educação editadas entre 1971 e 1999, o presente texto analisa as formas de apropriação da obra de Pierre Bourdieu no campo educacional brasileiro. O conjunto dos 272 artigos publicados nesses periódicos e que fazem referências ao sociólogo constitui o corpus básico para a análise das peculiaridades das interpretações brasileiras do autor.

Dentre os grandes pensadores contemporâneos, nenhum dedicou-se de maneira tão extensiva, exaustiva e sistemática à educação quanto o sociólogo e antropólogo francês Pierre Bourdieu (1930). Para comprovar esta afirmação basta recensear a enorme quantidade de trabalhos monográficos em que ele elege a educação e o sistema de ensino como objetos de pesquisa, bem como a vasta gama de novos conceitos (ou de conceitos renovados), além de um peculiar método de investigação científica - tudo isso acionado com força e vitalidade para trazer à luz a totalidade das implicações, o mais das vezes obscuras, da educação (tanto formal quanto informal) nos processos mais ocultos de dominação simbólica.

Para a sociologia praticada por Bourdieu e sua equipe de pesquisadores, a educação não é um objeto como qualquer outro, mas constitui-se em temática central pelo exame da qual são revelados não somente os mecanismos do conhecimento social, ou seja, as formas que fazem com que os agentes se reconheçam e conheçam suas instituições e sistemas de instituições, seus mercados e produções simbólicas (arte, ciência, religião etc.), senão também os mecanismos de poder. Melhor dizendo, as formas que legitimam e sancionam, quer pela força, quer sobretudo pela "violência doce" da persuasão, tais mecanismos de poder, sem falar nos mecanismos pelos quais as filosofias ou representações do poder eufemizam o próprio poder (cf. Bourdieu, 1991: 117). "A Sociologia da educação", escreve ele, "configura seu objeto particular quando se constitui como ciência das relações entre a reprodução cultural e a reprodução social, ou seja, no momento em que se esforça por estabelecer a contribuição que o sistema de ensino oferece com vistas à reprodução da estrutura das relações de força e das relações simbólicas entre as classes" (1987a: p. 295). A palavra "contribuição", nesse trecho, é essencial para apreender o espírito da sociologia da educação praticada por Bourdieu. Para esta sociologia a questão a ser pesquisada em cada caso particular, entendido sempre como "modalidade do possível", isto é, como "o invariante na variante observada", é sempre a contribuição que o sistema de ensino oferece e a forma específica pela qual se reveste essa contribuição para a reprodução da estrutura das relações, simultaneamente de força e simbólicas, entre todos os agentes sociais (grupos, classes, instituições etc.).

O presente texto articula os resultados da pesquisa que se realiza acerca da obra de Pierre Bourdieu, buscando compreender as várias modalidades de apropriação que marcaram o ingresso dos estudos do sociólogo no campo educacional brasileiro. Com a finalidade de tornar exeqüível esse estudo opera-se por etapas que prevêem o exame das especificidades brasileiras da leitura de Bourdieu, nos periódicos especializados em educação, na utilização do autor em teses, dissertações e estudos publicados sob a forma de livros, em trabalhos apresentados em congressos, no movimento editorial do campo e na bibliografia de cursos universitários. Essa divisão, que diferencia as fontes mediante as quais é possível ter acesso aos processos de apropriação da obra do autor, não pretende autonomizar as diferentes instâncias de uma mesma dinâmica característica de um espaço de produção intelectual. Assim, mantendo a atenção para com a simultaneidade, as relações e a interdependência dessas instâncias, pode-se proceder ao estudo específico da produção divulgada em vinte publicações periódicas – revistas – educacionais de circulação nacional e amplamente reconhecidas (indexadas pela ANPEd), embora algumas já tenham tido sua publicação interrompida. Essa análise é o que se apresenta aqui. O período escolhido para exame são os anos de 1971 a 1999 e, nos vinte periódicos examinados, foram localizados 336 trabalhos (dentre os quais cinco resenhas) com referências à obra de Bourdieu. Como se pretendeu tratar da apropriação no campo educacional brasileiro, analisaram-se apenas os textos de autores nacionais com referências ao sociólogo francês (totalizando 272 artigos), sendo descartados do conjunto dos trabalhos localizados 64 escritos de autores estrangeiros publicados, no mesmo período, nas revistas consultadas.

Além disso, o presente trabalho levou em consideração, em grande parte, os ensinamentos contidos no artigo de Loïc Wacquant (1993), que faz uma análise das condições de recepção das obras de Bourdieu nos Estados Unidos. Escreve ele, citando Bourdieu, que "se é verdade que ‘o sentido de uma obra (artística, literária, filosófica etc.) muda automaticamente a cada mudança no campo em que está situada para o espectador ou leitor’ (Bourdieu. The field of cultural production, or the economic world reversed. Poetics, 12, nov., 1993: 311-356), então a adequada compreensão de um determinado autor impõe um duplo trabalho de elucidação: de suas idéias e do universo intelectual no qual elas chegam a circular. Requer que codifiquemos o espaço mental do autor - isto é, as categorias e postulados que o sustentam ou sua maneira de pensar e teorias substantivas - e requer, também, que consigamos alguma informação acerca do espaço acadêmico no qual seus escritos estão inseridos" (Wacquant, 1993: 235). Evidentemente nos informamos acerca das idéias e do universo intelectual no qual as idéias de Bourdieu circulam, bem como procedemos à decodificação do espaço mental do autor. Para isso, além da leitura da obra do pensador francês, nos valemos de bons comentaristas, a saber: Miceli (1987; 1999), Ortiz (1983), Pinto (2000). Utilizamo-nos, igualmente, de várias análises empíricas desenvolvidas por Bourdieu e pelos seus colaboradores.

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Escolheu-se falar aqui em apropriação da obra de Bourdieu para, justamente, indicar a variedade das formas de recepção e as formas peculiares de invenção na leitura que se fez do autor. O sentido do termo – parte do esquema conceitual forjado por Roger Chartier para explicitar os processos de produção de sentido que configuram a leitura como criação – matiza a compreensão das várias "interpretações" que entre nós foram feitas. Chartier refere-se ao conceito sustentando que "(...) a apropriação tal como a entendemos visa a uma história social dos usos e interpretações referidos a suas determinações fundamentais e inscritos nas práticas específicas que os produzem. Dar, assim, atenção às condições e aos processos que, muito concretamente, conduzem as operações de construção do sentido (na relação de leitura e nos outros casos também), é reconhecer, contra a antiga história intelectual, que nem as inteligências nem as idéias são descarnadas e, contra os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes, sejam filosóficas ou fenomenológicas, estão por se construir na descontinuidade das trajetórias históricas" (1998: 74). O próprio Bourdieu não se afasta dessa interpretação, na oportunidade em que examina as relações mantidas pelos indivíduos com as práticas culturais em "Lecture, lecteurs, letrés, littérature" (1987b) e ao dialogar com R. Chartier (Bourdieu e Chartier, 1985) acerca da questão da leitura ou do consumo cultural.

Assim é que buscamos explicitar as características da apropriação feita do pensamento de Bourdieu no Brasil, mediante a análise dos textos nos quais há referências ao autor, incorporação de conceitos e/ou assimilação do seu modo de trabalho. Os textos analisados permitem identificar três categorias, de acordo com os tipos de apropriação que se evidenciaram. A forma mais freqüente de apropriação é aqui designada como apropriação incidental, caracterizada por referências rápidas ao autor, geralmente ao livro A Reprodução. Nestas modalidades de apropriação são freqüentes as seguintes ocorrências: é comum o sociólogo ser arrolado nas referências bibliográficas e não aparecer mencionado no corpo do texto; vir referido apenas de passagem, junto com outros autores (em geral, Althusser, Baudelot e Establet, Bowles e Gintis), quase sempre de modo classificatório ("reprodutivista"); surgir em notas não substantivas. Nas apropriações incidentais não é possível estabelecer relação entre a argumentação empreendida no texto e a menção à referência, ou, então, a referência guarda relação muito tênue com o argumento desenvolvido. Classificamos a outra forma sob a denominação de apropriação conceitual tópica, caracterizada pelo fato de deixar entrever a utilização, conquanto não sistemática, de citações e, eventualmente, de conceitos do autor (como o de capital cultural, por exemplo). Nessa forma de apropriação as aquisições conceituais do sociólogo são mobilizadas, com maior ou menor intensidade, para reforçar argumentos ou resultados obtidos e desenvolvidos num quadro terminológico que não necessariamente é o do autor. Ampliam o leque de obras citadas, aparecendo textos como A economia das trocas simbólicas, O poder simbólico, Coisas ditas etc. A terceira forma recebe o nome de apropriação do modo de trabalho, constituindo-se em maneiras de apropriação que revelam a utilização sistemática de noções e conceitos do autor (campo, estratégia, habitus etc.), bem como mostram preocupação central com o modus operandi da teoria (construção do objeto, pensar relacional, análise reflexiva, objetivação do sujeito objetivante etc.) Nessa forma de apropriação acionam-se os utensílios teóricos desenvolvidos por Bourdieu em realidades empíricas precisas, sendo maior a diversidade de obras referidas e, inclusive, aparecem menções às Actes de la Recherche en Sciences Sociales, revista fundada por Bourdieu em 1975 e dirigida por ele até hoje. Nossa estratégia de trabalho, mais do que pretender avaliar a justiça ou adequação das apropriações, apela a esse mesmo conceito de apropriação e à maneira pela qual o próprio Bourdieu entende a diversidade da produção das práticas culturais para tentar mostrar também algo das condições nas quais o autor foi lido.

Os primeiros textos de Bourdieu traduzidos no Brasil são dois artigos que aparecem em coletâneas publicadas em 1968. No entanto, ele começaria a ser mais extensivamente lido em meados da década de setenta, quando outros artigos de sua autoria surgiram em antologia organizada por Sergio Miceli (1974), e em 1975, quando da primeira edição brasileira de A Reprodução. Tais publicações, mais divulgadas que as anteriores, tornariam alguns importantes trabalhos do sociólogo acessíveis ao público leitor interessado em questões sociológicas e educacionais, sobretudo professores e estudantes universitários. Na mesma época, o artigo de Bourdieu "Condição de classe e posição de classe" seria incluído na coletânea Hierarquias em classes, organizada por Neuma Aguiar. Ainda nos anos setenta, dois outros artigos de Bourdieu fariam parte da coletânea organizada por José C. Garcia Durand, e no mesmo período seria lançada a tradução de Algérie 60, que no Brasil receberia o nome sugestivo de O desencantamento do mundo. Se nesta década Bourdieu causaria certo impacto, embora restrito, na produção sociológica e antropológica universitária, passaria, entretanto, relativamente desapercebido no campo educacional brasileiro, que não responderia com maior entusiasmo à chegada de um sociólogo que, mesmo na França e na Europa, era tido como difícil e não oferecia muitas armas para as lutas acadêmicas da época, em geral voltadas à militância política.

Até meados da década de setenta, as referências a Bourdieu nos periódicos examinados são incidentais e esporádicas. Publica-se um texto que faz referência a Bourdieu na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Rbep, (Capalbo, 1974), e em Cadernos de Pesquisa registram-se a resenha sobre La Reproduction, ainda não traduzido naquele momento (Barreto, 1972), e outros poucos artigos nos quais é possível identificar apropriações incidentais de sua obra (Barreto, 1975; Barroso & Mello, 1975; Gouveia, 1976). Nos anos finais da década seriam publicados nove artigos em Educação & Sociedade nos quais aparecem referências a Bourdieu: em geral referências incidentais, e o artigo de Luiz Antônio Cunha (1979), que viria desencadear, pouco depois, breve polêmica nas páginas de Cadernos de Pesquisa (Cunha, 1982; Durand, 1982). O fato é que, se a obra de Bourdieu ativou direta ou indiretamente estudos no campo educacional brasileiro naquela década, isso deve ser creditado muito mais a alguns conceitos e resultados analíticos obtidos pelo sociólogo – proveitosos, sem dúvida, para dar conta de uma realidade educacional brasileira que já na época parecia cada vez mais excludente - do que propriamente a uma incorporação sistemática do modo de fazer pesquisa do autor francês.

Os anos de 1979 a 1983 seriam decisivos para a forma da ulterior apropriação de Bourdieu no campo educacional brasileiro (dois marcos nessas datas: em 1979, a publicação do artigo de Cunha acima mencionado e, em 1983, uma coletânea de artigos de Saviani). Durante esses anos há o início de uma operação caracterizada pela cobrança de pressupostos políticos na leitura de Bourdieu. É uma operação de deslocamento: retirada dos quadros científicos mais amplos que lhe conferem sentido, a obra de Bourdieu, lida sobretudo a partir de A Reprodução, passa a ser objeto de controvérsias políticas no campo educacional brasileiro. Isso ocorre quando, na oportunidade, a obra do sociólogo francês é aprisionada na dicotomia muito em voga da "reprodução x transformação" (que, na passagem dos anos oitenta para os noventa seria transmutada na dicotomia "reprodução x resistência", cf. Teoria & Educação, n. 1, cujo título geral é "Teorias da reprodução e da resistência"). Bourdieu passa a ser considerado um autor crítico, reconhece-se, mas politicamente desmobilizador: sua teoria, se possibilita instrumentos para a crítica da função desempenhada pela escola na sociedade capitalista, não fornece armas para a ação, limita-se à constatação da dimensão reprodutivista da escola, não dá conta das contradições da realidade, enfim, desmobiliza. A imposição dessa problemática tem como uma das conseqüências concentrar a atenção nessa dimensão da leitura, afastando-se da compreensão dos propósitos e da lógica da obra de Bourdieu e condicionando fortemente, como já afirmado, a forma da apropriação do autor no campo educacional brasileiro.

Ainda acerca de A Reprodução, Bento Prado Jr. (1980) foi um dos melhores intérpretes do sociólogo francês no Brasil, sendo que seu texto contrasta com a maioria das análises realizadas por aqui. Muitas críticas ocorreram na França, no princípio dos anos setenta, acerca do referido livro, sendo que algumas delas conseguiram razoável difusão entre nós. Prado Jr. observa que tais críticas constituem-se, principalmente, em objeções de inspiração marxista, "que insistem, sem descontinuar, no fato de que Bourdieu e Passeron, depois de descreverem a função reprodutiva da escola, calam a maneira pela qual é refletido, no espaço interior das instituições pedagógicas, o conflito de classes que atravessa o todo da sociedade (...) A Reprodução (...) dá o que pensar, tanto ao nível de uma teoria geral da educação (...) quanto àquele, mais próximo, da recente história da escola (...) porque foi o ponto de partida de todo um processo de ‘desconstrução’ da representação vulgar das instituições pedagógicas (...) mas sobretudo porque dá pistas, talvez nem sempre conscientes na mente dos autores, da gênese da ilusão que ajudam a resolver" (p. 20). Prado Jr. destaca, ainda, que os autores estabelecem uma teoria geral da "violência simbólica" e, simultaneamente, propõem uma explicação do funcionamento das instituiçòes escolares da França, elaborando a análise de uma Faculdade de Letras, mostrando que o universitário, ao dominar o código lingüístico, converte-se numa espécie de mandarim. E o que vai dar o tom é, justamente, esse código lingüístico burguês (constituído fundamentalmente no quadro da socialização primitiva, no âmbito familiar), "com seus cacoetes, seus idiotismos, sua particularidade". Reencontrado nas salas de aula pelos "futuros notáveis" (ou, para se valer de outra obra de Bourdieu, pelos herdeiros), será erigido "como a linguagem da razão, da cultura (...) como ‘elemento’ ou horizonte da Verdade (com V maiúsculo). O particular é arbitrariamente erigido em universal e o ‘capital cultural’ adquirido na esfera doméstica, pelos filhos da burguesia, lhes assegura um privilégio considerável no destino escolar e profissional. No destino, enfim" (p. 21). Essas dimensões analíticas - além de outras, que deixamos de mencionar - destacadas por Prado Jr. passam totalmente desapercebidas pelos demais críticos, preocupados apenas em contabilizar o "potencial revolucionário" imediato que A Reprodução poderia apresentar.

A operação a que vimos aludindo torna-se inteligível a partir do estado do campo educacional à época. Provavelmente a hipótese de trabalho mais rica é a de que tal operação dá-se num campo educacional inclinado a demandas heterônomas e, correlativamente, atende à lógica concorrencial do campo na época: os defensores da dicotomia "reprodução x transformação" estavam, eles mesmos, embora nem todos, empenhados na construção de teorias pedagógicas bastante propensas à politização e militância, que fatalmente seriam questionadas por uma sociologia que, conquanto ainda em grande parte desconhecida no Brasil, apresentava-se como candidata à tarefa de desmistificar tanto os móveis de luta dos campos simbólicos quanto os otimismos decorrentes das disposições contestatárias dos agentes do campo educacional, tendentes a depositar suas esperanças de transformar o mundo nas tomadas de consciência libertadora. Efetivamente, posta nesse âmbito, a sociologia de Bourdieu, sem dúvida, estava condenada à perda de legitimidade num campo em crescente politização. Essa forma de deslocamento deve ser entendida a partir de uma configuração específica das forças analíticas que moldavam o campo educacional brasileiro à época e, por conseguinte, definiam e delimitavam os móveis legítimos das lutas inseparavelmente teóricas e práticas, pedagógicas e políticas.

A operação levada a termo no campo educacional brasileiro no anos oitenta, e que acabaria por destinar a obra de Bourdieu a um lugar da análise educacional caracterizado pelo rótulo de "reprodutivista" ou "crítico-reprodutivista", estava dotada de cinco aspectos inseparáveis. Em primeiro lugar, deu-se pouca atenção ao arcabouço conceitual desenvolvido pelo sociólogo até a época, ou seja, os conceitos de habitus, campo, arbitrário cultural, capital simbólico, estratégia, poder simbólico, violência simbólica etc., e às operações conceituais e relacionais entre todos esses conceitos, como por exemplo, a que estabelece a homologia entre os campos, a que define a lógica das práticas e a do mercado de bens simbólicos. Em segundo lugar, também não parece ter havido a consideração de um dos fundamentos da sociologia de Bourdieu, qual seja, o da existência das mediações e das autonomias relativas entre os campos. A conseqüência disso foi que a Bourdieu, empenhado em apreender a contribuição do sistema de ensino aos processos mais gerais de reprodução social, ou, como se diria hoje, o lugar da educação e do sistema de ensino numa economia geral das práticas e das trocas simbólicas, foi atribuída uma "teoria da educação" que, conquanto crítica e denunciadora, era não-dialética. Essa suposta dimensão não-dialética conduz ao terceiro aspecto, qual seja, tudo indica ter havido o deslocamento da perspectiva sociológica de Bourdieu para uma perspectiva "sócio-lógica". As proposições do livro um de A Reprodução foram, na prática, e a despeito das declarações em contrário, cindidas das operações de pesquisa do livro dois e, conseqüentemente, tomadas como um discurso geral sobre a escola em geral, válido para todas as sociedades e em todas as épocas. Isso conduziu à idéia de um caráter não-dialético da teoria, na época a forma suprema de desqualificação epistemológica, forma decerto eufemizada de desqualificação política. Isso sugere que, em vez de se interpretar a obra do autor como uma tentativa científica de fundar uma antropologia geral das práticas e das trocas simbólicas a partir da análise de certas instituições das sociedades contemporâneas (o sistema de ensino, por exemplo), identificou-se nela tanto teses políticas, sobretudo sobre a escola, quanto esquemas puramente lógicos e a-históricos de interpretação "sócio-lógica". O quarto aspecto está ligado à criação de expectativas em torno de propostas pedagógicas na obra do autor: na ausência de um discurso doutrinal sobre a educação, ela foi interpretada como uma "teoria da educação" sem propostas. Para um campo que se encontrava num estado em que se dava bastante ênfase à ação, sobretudo transformadora, isso era interpretado como um defeito grave da teoria. Finalmente, como complemento às demais operações, a obra de Bourdieu acabou por ser aprisionada nas dicotomias que ele tanto combateu e vem combatendo em suas pesquisas: com o tempo enclausurou-se a sociologia de Bourdieu na dicotomia "reprodução x transformação", dicotomia que na época fazia enorme sucesso no campo educacional. O resultado dessas interpretações conjuntas foi um Bourdieu absolutamente irreconhecível, transformado em "pedagogo reprodutivista" (cf. Silva, 1996). A literatura já se encarregou de refutar essas leituras, mas talvez caiba sublinhar que, no caso das resistências, tanto para o Bourdieu de hoje quanto para o de então, as resistências individuais e coletivas existem sempre, são componentes inelimináveis do processo de reprodução social. É, por conseguinte, um pleonasmo afirmar e insistir nas resistências dos agentes às coações sociais. O problema proposto por Bourdieu era (e é) inteiramente outro: era (e é) o de mostrar como se dá a forte adesão dóxica dos agentes sociais à ordem estabelecida e como o sistema de ensino, sobretudo a partir das formas de classificação escolarmente sancionadas e reproduzidas, está implicado nesta adesão, quer dizer, nessa cumplicidade impensada, pré-reflexiva, incorporada como uma "segunda natureza". Toda a discussão reprodução x resistência fica, a partir daí, destituída de sentido científico, embora tenha feito ponderável sentido político na época, em um campo educacional fortemente inclinado, conforme já se disse, à militância e politização, como foi o caso no Brasil.

Nos anos oitenta há também trabalhos que, não necessariamente partilhando das modalidades de leitura já descritas, procuram no autor um ou outro conceito ou argumento, embora sem sistematicidade. A partir de meados da década é que começam a aparecer textos que evidenciam uma forma de apropriação mais sistemática da obra de Bourdieu. Esses trabalhos contribuem pouco a pouco para tornar mais evidente toda a problemática científica suscitada pela sua obra - podem ser citados, por exemplo, os trabalhos de Martins (1987; 1989), um sobre a teoria de Bourdieu e outro sobre a emergência, desenvolvimento e consolidação das instituições privadas no campo universitário. Mas como o campo educacional brasileiro ainda se encontrava num estado no qual eram fortes as demandas heterônomas, o aprisionamento da obra de Bourdieu na dicotomia "reprodução x transformação" (ou "reprodução x resistência") ainda permanece dominante. Basta observar o texto de Freitas (1991), que, conquanto no âmbito de uma apropriação tópica, retoma a argumentação anteriormente desenvolvida sobretudo por Saviani: Bourdieu é necessário (crítico), mas não suficiente (desmobiliza e não aponta perspectivas para a ação transformadora dos agentes educacionais, para a luta de classes).

Observa-se que nos anos oitenta aumentam aos poucos as referências a Bourdieu nos textos dos periódicos consultados, ao mesmo tempo que suas obras - outras que não A Reprodução - se tornam mais acessíveis ao público, sobretudo universitário, por conta de um mercado editorial chamado a responder às demandas do campo universitário, mormente da sociologia e antropologia, que, aliás, não parecem ter participado do acantonamento de Bourdieu na problemática especificamente pedagógica da reprodução e transformação (ou resistência). Concomitante a lançamentos editoriais que viriam a ocorrer ao longo de toda a década, em meados dos anos oitenta apareceria o que possivelmente é a primeira tradução de um texto de Bourdieu nos periódicos do campo educacional brasileiro: trata-se da entrevista "Universidade: os reis estão nus", na Rbep (v. 66, n. 152). Registre-se também que em 1989 o periódico Educação em Revista, da UFMG, publicaria "A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura". Só o fato de vir a lume dois textos de Bourdieu em periódicos do campo educacional já sugere uma perceptível alteração na configuração do campo. Efetivamente, para o final daquela década a dicotomia "reprodução x transformação" vai envelhecendo aos poucos, envelhecimento concomitante ao declínio dos paradigmas então mais em voga no campo – pedagogia crítico-social dos conteúdos, pedagogia do oprimido, as variantes então praticadas de marxismo etc. Mas a problemática da reprodução e da transformação (ou resistência) persistiria, como dotada de inércia, e só iria sair de cena em meados da década de noventa. Um índice do quanto essa problemática foi dominante no campo educacional é o fato de trabalhos como os de Nogueira (1990) e Silva (1990), autores que desempenharam importante papel no quadro das apropriações brasileiras do sociólogo francês, ainda serem, nessa época, de certa forma tributários da problemática "reprodução x resistência".

Só a partir de meados dos anos noventa é que a obra de Bourdieu passa a receber leituras mais diversificadas, evidenciando tanto apropriações conceituais tópicas quanto do modo de trabalho. Isso é constatável na multiplicidade de objetos e temas nos quais seus conceitos são mobilizados e, sobretudo, na incorporação ativa do modus operandi da teoria, coisa que havia sido antecipada nos anos oitenta por alguns trabalhos, como os de Martins. Essa incorporação ativa pode ser exemplificada nos textos de Nogueira (1991), Castro (1995), Setton (1994), Canêdo (1991), entre outros. O fato é que a sociologia praticada por Bourdieu somente encontraria espaço de inserção no campo da análise educacional quando do declínio dos modos de análise anteriormente citados – pedagogia crítico-social dos conteúdos, pedagogia do oprimido e as variantes do marxismo - e com a reativação dos estudos de sociologia da educação no País: leituras de Basil Bernstein e Bourdieu, nova sociologia da educação (Apple), teoria educacional crítica, estudos de currículo, revista Teoria & Educação, avaliações do legado de Luiz Pereira e Marialice Foracchi, enfim, quando finalmente se instaura na análise educacional uma pluralidade de pesquisas sociológicas, em objetos e métodos. No decorrer da década de noventa é possível encontrar no campo educacional brasileiro trabalhos inspirados em Bourdieu que procuram dar conta de uma vasta gama de objetos, indicando em muitos casos, como já se disse, não apenas o uso de um ou outro utensílio conceitual desenvolvido pelo sociólogo, mas a criativa incorporação de uma forma de fazer ciência.

Algumas observações podem ainda ser feitas a propósito da diversidade das apropriações do pensamento de Bourdieu, nos anos noventa, no campo educacional brasileiro. Uma das marcas principais dessas apropriações é justamente o esforço de mobilização dos conceitos e dos modos de trabalho do autor para a análise de questões específicas do espaço da educação. Tal é o caso dos estudos que investem na análise de temáticas como as relações entre origem social e expectativas profissionais de futuros professores ou das análises das relações que os professores (de Português) mantém com a questão da leitura. Esses trabalhos (Silva, 1997; Batista, 1998) incluem-se entre os sete artigos publicados por Educação em Revista entre 1997 e 1999. Ao atentarmos também à dimensão quantitativa da presença de Bourdieu na produção educacional recente, dois outros periódicos expressivos do campo evidenciam a sua força: a revista Educação & Realidade abrigou entre 1981 e 1997 14 trabalhos em que o autor era referido; a revista Teoria & Educação, igualmente do Rio Grande do Sul, publica apenas entre 1990 e 1992 cinco textos nas mesmas condições. Pode-se apreender na leitura da maioria desses textos, e em grande parte dos que aparecem nos outros periódicos na mesma época, uma disposição mais efetiva para apropriar-se do modo de trabalho, pondo-o à prova e evidenciando sua potencial fertilidade. Uma tal disposição significa então o abandono da insistência em buscar no autor apenas propostas de transformação social via educação. Livres dessa espécie de fixação que marcou de modo significativo a leitura dos anos setenta e parte dos oitenta, os estudos que se apoiam em Bourdieu e dele se apropriam passam a revelar a maior familiaridade com a obra: incorporam outros títulos e outras contribuições do sociólogo e de seu grupo reunido em torno de seminários de pesquisas e da já mencionada revista Actes.

O que ainda se poderia acrescentar a essas observações diz respeito às peculiaridades do campo educacional brasileiro, no qual a produção científica esteve fortemente orientada para a resolução de problemas, que se acompanhou por um afã prescritivo e que, em muitas circunstâncias, fez passar a um segundo plano a possibilidade de se estar compreendendo as especificidades do funcionamento do espaço no qual a educação se concretiza e no qual se disputa o direito de impor o discurso legítimo acerca da mesma. Silva (1992) mostrou isso ao assinalar a diferença entre os problemas educacionais e os problemas sociológicos da educação: nem se trata de deixar de esperar conseqüências políticas práticas das teorias, elas podem e devem ter tais conseqüências, sem que para isso as expectativas sobre as mesmas venham integrar a própria teoria. É também o caso de se indagar se essa marca da apropriação do pensamento de Bourdieu, entre nós, nos anos setenta e parte dos oitenta, não constitui mesmo, e ainda hoje sob formas variadas, um dos traços principais da produção educacional, o que nos obriga a indagar acerca dos rumos que essa produção toma, no âmbito não somente da sociologia, mas da história, da psicologia e de estudos especialmente ligados à investigação do trabalho prático do ensino.

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