O PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO:

 Considerações sobre a construção de projeto em base dialógica

 

Jorge Barcellos[1]

 

 

“Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o  futuro. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de instabilidade e busca uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o presente”.

Moacir Gadotti

 

 

 

A construção do projeto-político pedagógico tem sido apontada como uma das questões mais importantes da condução do trabalho pedagógico. Há uma extensa bibliografia disponível, e de fato, uma pesquisa extensa sobre o tema[2]. O texto não apresenta uma formula para a construção do projeto político pedagógico, mas uma colaboração sobre os pressupostos que podem estar emperrando sua construção neste final de século. Ao contrário de parte de bibliografia, é recuperada dúvidas e inquietações que afligem professores e professoras diante de nosso tempo repleto de incertezas. Como fazer um projeto adequado a esta época para nossas escolas? Também diferente de outras abordagens, o projeto-político pedagógico aqui abordado  centrará suas reflexões a partir  de termos políticos e sociológicos. Repassarei algumas mudanças importantes  neste final do século que justificam a necessidade da mudança de perspectiva no interior da escola, e com ela, a criação de instrumentos como o projeto político- pedagógico com base numa perspectiva dialógica. Apontarei de maneira sumária um roteiro para sua construção na escola, de forma a agregar temas importantes no campo da ética, da política e das sociabilidades escolares na condução do roteiro escolar.

 

Do fim do milênio

 

Existe um campo de mudanças radicais em nossa era para o qual não estamos preparados e que devem ser problematizados pelos educadores. Cada vez mais se exige um posicionamento ético e político frente aos acontecimentos que nos cercam na cidade, no pais, no mundo e que devem, de alguma forma, emergir nos conteúdos previstos ou na filosofia de qualquer projeto-político-pedagógico. Tomemos como exemplo as notícias sobre as possibilidades de clonagem de seres humanos. A possibilidade de interferência direta no processo de criação da vida ( e diríamos, para localizar nossas sociedades, da morte) é um aspecto dramático dessas mudanças contemporâneas. Sua discussão deve fazer parte de determinadas disciplinas (biologia, por exemplo) para preservar o caráter de atualidade que deve ter o conhecimento escolar. A questão da atualidade e contemporaneidade daquilo que é ensinado é tema para um projeto político-pedagógico. Diz Ilma Passos[3]

“O projeto busca um rumo, uma direção. É uma ação intencional, com sentido explicito, com um compromisso definido coletivamente. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é, também, um projeto político por estar intimamente articulado ao compromisso sociopolitico com os interesses reais e coletivos da população majoritária. É político no sentido de compromisso com a formação do cidadão par aum tipo de sociedade”

 

Recordemos os movimentos populacionais no Brasil, cada vez mais freqüentes.  A hipótese de que o homem não tem mais como sustentar a tradição, sobreviver em seu meio de origem, rural, limita enormente as possibilidades de trabalho para os  indivíduos. Para o que aqui nos interessa  mais detidamente, o processo de globalização está diretamente envolvido nisto. Não existe projeto político pedagógico sério que não faça considerações sobre os problemas que afetam os diversos movimentos sociais. 

 

Da crise da educação ao projeto político

 

Essa breve problematização de nossa época tem o sentido de provocar no educador a discussão de seu trabalho, e como a escola pode colaborar na formação do cidadão. Mais especificamente, como a construção de um projeto coletivo – o projeto político pedagógico – pode colaborar na inserção da escola no mundo de forma mais ativa. A todo momento, professores desenvolvem atividades de educação política que exigem, em muitas ocasiões, a formulação de um projeto de trabalho relacionado à disciplina da qual são responsáveis  e em ultimo caso, com um projeto da escola. Também é necessário no contexto de desiguadade que vivem a maioria de nossas populações, lembrar que a cidadania é um direito e um valor. Ambas iniciativas são necessárias e urgentes. A formação política de nossos jovens foi bastante afetada desde o final da década de 80, sobretudo em decorrência de sua entrada  no campo da sociedade de consumo e de novas sociabilidades e hábitos contemporâneos. O aumento da violência, a perda de referenciais e a ultrapassagem dos limites pelos jovens atestam que as formas de solidariedade e justiça estão fragilizados. A extrapolação da violência, que deixa de ser algo da comunidade para inserir-se na escola, revela que as sociabilidades escolares estão também fragilizadas. Não é a toa que muitos dos professores tem o objetivo explicito de trazer para a discussão da escola a questão da violência e de seu combate. De modo especial, o desafio que o projeto político pedagógico coloca é buscar a verdade: a verdade da relação da escola com seu entorno, com outras instituições, e principalmente, as características da comunidade escolar que atende.

Projetar um rumo para professores na escola e em sala de aula, assim como um roteiro para a avaliação e discussão da ação de alunos e professores, o projeto político pedagógico permite não apenas atuações individuais dos profissionais de ensino, mas também uma visão abrangente e política que é baseada em princípios de condução do trabalho escolar. Para superar os limites de cada professor, cada vez mais preso aos limites de sua sala de aula e de suas disciplinas, o projeto propõe o entendimento da escola como comunidade política.

 

O projeto político pedagógico: a valorização da comunidade política

 

Neste texto gostar de destacar que o projeto político-pedagógico tem a importância de revelar aos professores, alunos e funcionários de que eles constituem uma  pequena comunidade política em um meio educacional voltado para a educação. Nesse sentido, se há um ponto central a ser destacado em qualquer projeto, a partir do contexto formulado de globalização, é o de uma educação de qualidade voltada para a formação para a cidadania.[4]  Tal como compreendemos, o projeto político pedagógico deve propor, aos diversos atores, a consolidação de um senso de comunidade política, pré-condição para gestionar democraticamente a escola e o trabalho de cada professor em especial.

Existe  uma forma de verificar  se o projeto político pedagógico está se organizando numa comunidade política. É observando-se o cultivo das habilidades do diálogo, do questionamento, da investigação reflexiva e do bom juízo e da representação por professores, alunos e comunidade envolvida na sua elaboração. Somente numa escola que tem como objetivo cultivar comportamentos e hábitos políticos é que o sucesso do projeto politico-pedagógico pode se realizar. Assim, não adianta os profissionais da escola elaborarem um projeto político-pedagógico com um suposto viés democrático, se quando entramos em sala de aula, não observamos o esforço desses mesmos profissionais de ensino. Por que, para exercer de fato uma gestão e prática democrática, há uma série de comportamentos que alunos e professor devem respeitar, disposições a serem observadas, que tem conseqüências práticas, sociais, éticas e políticas para na construção do projeto político-pedagógico da escola. De fato, lhe garantem as condições de legitimidade.

A construção de um  projeto político pedagógico depende, em primeiro lugar, pela existência na comunidade escolar do hábito do diálogo, estabelecido colaborativamente pela contribuição ponderada de todos os atores da escola. Sua discussão, seja em sala de aula com os alunos, seja entre os professores, ou ainda, com os pais,  só será efetiva se cultivar patamares mínimos de disciplina, organização de discussão, e principalmente, se os debates souberem levar a termo as diversas considerações lógicas, epistemológicas e políticas que um projeto exige que sejam esclarecidas entre todos. Diz Paulo Freire[5]:

 

“Se, na verdade, o sonho que nos anima é democrático esolidário, não é falados aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fôsssemos os portadores da verdde a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles

 

Como a escola é uma instituição no interior da qual se exerce poder como os estudos inspirados na obra de Michel Foucault demonstraram, os diversos membros envolvidos na construção do projeto negociam entre si procedimentos lógicos e metodológicos a serem considerados na elaboração do projeto político-pedagógico. O canal de comunicação entre profissionais de ensino e alunos, os estudantes devem ser incentivados a avaliar – e  discutir  – a proposta de trabalho que seja também adequada aos seus interesses, rejeitando, se for o caso, uma proposta de projeto político-pedagógico fraco. A conseqüência é importante: não há elaboração comunitária sem disposição a uma disputa. Para o professor, este é uma exigência delicada. Ela implica que o pensamento do professor deve estar disposto a contribuir no contexto da comunidade política escolar, o que significa também necessidade de aceitar a dependência com relação aos outros, sejam eles alunos, funcionários ou  pais  e seguir as discussões respeitando perspectivas alheias, envolvendo-se colaborativamente  em processos de auto-correção quando necessário.  No interior do processo de construção do projeto político-pedagógico, trata-se de levar aos profissionais a arte de decidir politicamente a construção de um projeto educativo dentro dos limites dados pelo contexto de diálogo e de investigação.

Existem alguns comportamentos cognitivos necessários para a elaboração de qualquer projeto político pedagógico e que podem ser observados nos hábitos que professores, alunos, funcionários, e pais são capazes de revelar enquanto discutem o projeto. Elas podem ser resumidass no seguinte conhecimento:

 

Saber propor negociações e trocas

Estabelecer alianças

Dar e pedir boas razões

Fazer boas distinções e conexões

Fazer inferências válidas

Levantar hipóteses

Dar contra exemplos

Descobrir pressuposições

Usar e reconhecer critérios

Fazer boas perguntas

Inferir conseqüências

Reconhecer falácias lógicas

Exigir relevância

Definir conceitos

Buscar esclarecimento

Expressar implicações

Perceber relações

Emitir bons juízos

Padronizar

Usar boas analogias

Ser sensível ao contexto

Oferecer pontos de vista alternativos

Construir logicamente sobre as contribuições dos outros

Expressas as diferenças sutis.

 

 Portanto, além de pensar nos objetivos, os sujeitos envolvidos na construção de um projeto político-pedagógico devem pensar também na forma como estabelecem suas relações políticas no momento da sua elaboração.  Em uma escola, os participantes estão em uma relação contingente, estreitamente ligadas aos interesses do grupo e diversas atividades profissionais desenvolvidas na escola, sempre em revisão.  Além disso, os profissionais de ensino devem estar atentos ao fato de nem sempre alunos e pais estão abertos à complexidade e ambigüidade das necessidades que o documento evoca, já que as vezes suas crenças guiam a sua ação. Marisa Eizirik, em Educação e Escola, [6]    revelou atitudes conservadoras através de exemplos que, ainda hoje, podem ser vistos em uma escola qualquer

 

“A idéia de dever e de cobrar praticamente abrange toda a dimensão da escola e os papeis estão firmemente distribuídos e arraigados. Os professores se julgam no dever de serem os fiscais da aprendizagem, e os alunos, os que estão em eterna dívida. Isso se observa nas relações entre aluno e professor, em que ambos utilizam os mesmos códigos – a dívida e a cobrança As notas são dadas milimetricamente, divididas em décimos e metades de pontos, como se fosse alguma coisa quantificável e de extremo valor”.

 

No momento da elaboração do projeto político pedagógico, a condição mínima essencial entre os sujeitos participantes da sua elaboração na escola é que se estabeleça um comprometimento provisório com uma crença, idéia ou ação guiada pela necessidade de gestionar o trabalho escolar, mas isso não significa, de modo algum, que aquilo que for definido num determinado momento seja a verdade absoluta. A necessidade de agir que o projeto propõe exige, de fato, bons juízos e princípios práticos que o  projeto deve explicitar, que só serão verdadeiros se vivermos a experiência dialógica, como propôs Paulo Freire, estabelecendo as diferenças sutis entre o aprender e fazer a justiça.  A esse respeito, Agnes Heller[7] no ensaio "Sentir-se satisfeito numa sociedade insatisfeita", incluído em sua obra "Políticas da Pós-modernidade", apontou detalhes importantes de uma determinada noção de ética e justiça para nossa época.  Citando Lutero, que dizia "Aqui estou e não podia estar de outra forma", para ela este é o ideal do homem coerente.  Consciente de que sua consciência cria um mundo novo, defende eticamente "a forma de vida, pluralidade do mundo ético... [é] pluralidade de formas de vida.” A pensadora húngara busca, pois uma Ética que funda o cotidiano por um lado, e a política, a filosofia e a  ciência, por outro, e, portanto, só existe em condições previas e concretas de existência social. Entre seus resultados, Heller definiu o conteúdo de valores e conceitos como liberdade, igualdade fraternidade, paz com base numa antropologia que permite responder a pergunta quem somos? E que permite responder a questão ética "o que devemos fazer". Assim, Heller inspira aos educadores a tomarem uma posição de fundo emdefesa de todas as formas de vida (tolerância), baseada em valores essenciais a humandiade, como liberdade, igualdade e paz.  De fato, da mesma forma, um bom projeto político-pedagógico não se faz sem uma investigação filosófica, uma teoria antropológica de inspiração marxista, num ponto onde não está distante Freud, com sua visão de unidade dos instintos, dos sentimentos, pensamentos.

Heller portanto colabora com pressupostos filosóficos que podem ser úteis à base de um projeto político pedagógico. A capacidade de discutir, avaliar conjuntamente os rumos do trabalho a escolher está baseada no senso comum  necessário para realizar julgamentos morais e políticos coletivamente. Tais julgamentos são intersubjetivos e requerem serem testados em face de opiniões do grupo escolar.

Para construir um projeto político pedagógico não existem critérios fixos, determinados, eles são dependentes das preocupações práticas. O conhecimento que ele revela é inseparável das atividades escolares, produto do raciocínio, mas também da negociação possível nas relações políticas que estabelecem os diversos sujeitos da escola entre si.  Como é produto da negociação entre os sujeitos envolvidos no processo escolar (pais, alunos, funcionários, professores, etc), somente um grupo que tem como objetivo construir formas de relações dialógicas é capaz de realizar um bom projeto. Elas envolvem, por exemplo:

-        Capacidade de ouvir os argumentos uns dos outros

-        Capacidade de apoiar uns aos outros ampliando ou corroborando seus pontos de vista.

-        Capacidade de submeter a sua (a dos outros) opinião a investigação critica

-        Capacidade de dar razões para apoiar opiniões, mesmo quando não concorda com elas.

-        Capacidade de levar em conta seriamente às idéias uns dos outros, respondendo e encorajando a expressarem suas opiniões.

 

O grupo de sujeitos envolvidos na elaboração do projeto político-pedagógico da escola  deve manifestar um cuidado com os procedimentos políticos interno no grupo, como também a lógica da argumentação entre as partes. Deve olhar atendamente para as formas de sua sociabilidade. É um movimento difícil, que, no entanto, se bem observado, permite o crescimento de cada um dos membros da equipe. A disposição mais difícil na concepção dialógica de elaboração de um projeto é justamente o cuidado na disposição de estar aberto, de ser capaz de mudar de idéia e de prioridades para cuidar do pensamento alheio. Ou seja, uma boa vontade em ser transformado pela opinião do outro, de ser afetado pelo outro, cuidado sem o qual inexiste diálogo, e, portanto, condição para a elaboração de um projeto. Por outro lado, o projeto político-pedagógico pode ser uma experiência útil para o desenvolvimento da confiança, orientação básica em relação ao mundo que é responsável pelos indivíduos perceberem que tem na escola um papel a desempenhar e que a clareza de seus objetivos pode fazer a verdadeira diferença na educação das crianças. Além disso, a escola é o lugar em que os sujeitos perceberão que não só seus pensamentos – sua idéia de um mundo melhor – como também suas ações, dependem da capacidade de fazer alianças, em ultima palavra, criar vínculos  com os outros. A confiança é pré-condição para o desenvolvimento da autonomia, auto-estima dos indivíduos participantes e internalização do projeto político – pedagógico. Se os professores tiverem estes pequenos cuidados, criarão as condições necessárias a uma concepção de mundo no qual pode se obter um lugar e resultados, criando beleza onde antes nada existir a partir das negociações que estabelecemos com os que nos rodeiam.

O campo político da escola é aquele espaço onde os participantes são capazes de se dar espaço aos outros, falar quando acham que tem algo relevante para dizer ou quando tem a responsabilidade de trazer o diálogo de volta aos trilhos. Nem sempre os estudantes parecem  capazes de colaborar imediatamente com a formulação do projeto político pedagógico. Eizirik recolheu depoimentos que mostram  aos termos dificuldade de lidar com a individualidade dos alunos, terminando por condenar as crianças ao fracasso. O sistema educacional cria, a todo o momento, “crianças e adolescentes massacrados em sua auto-estima, e. freqüentemente, sem apoio da família, que ainda reforça a escola. Essa é uma das grandes feridas do ensinar e do aprender: o gosto amargo do fracasso escolar” , diz Eirizik. Como evitar que esse problema afete a criação do projeto político-pedagógico? Pra os jovens e entre  eles, podem até ouvir e acolher o que os outros têm a dizer de modo que o significado e a vitalidade são compartilhados. Mas com adultos, isso é diferente. A isso, Michel Mafessoli denominou  “tribalismo”.[8] Entre si, os jovens estão livres da necessidade de estarem sempre certos e tem capacidade de dialogar entre si, defendendo seus pontos de vista.  Estão encantados com a comunidade política da qual participam – a tribo. Faltam-lhes, portanto,  pensar o dialógico com os professores e profissionais de ensino. Para isso, os professores também precisam ser capazes de chegar a entender que também não sabem muita coisa.

Na construção dessa relação dialógica, também existem determinadas características psicológicas ou sócio-psicológicas que contribuem no momento de construção de um projeto político-pedagógico. É saber perceber, no momento de uma discussão e argumentação,  o crescimento do eu em relação aos outros. É preciso saber colocar o ego em perspectiva, disciplinando sua expressão, quando em excesso, numa verdadeira busca da transformação do eu. Perceber que os participantes da discussão de um projeto se envolvem em extensos monólogos pode ajudar a compreender as cenas que só levam a esvaziar o diálogo. Ou aponta que os sujeitos, na verdade, não querem uma resposta.  Dialogar implica numa certa capacidade de flexibilidade  intelectual, autocorreção e crescimento, submetendo nossa experiência a questão do grupo.

Uma forma de avançar nessa linha é os professores e participantes descobrirem que é necessário certo silêncio para que os demais participantes possam expressar suas próprias idéias. Os profissionais da educação, mais experientes na elaboração ou na concepção de um projeto político pedagógico, deve ser capazes de se calar para incentivar os outros, omitindo-se em determinados momentos para ouvir abertamente os outros – a comunidade, os alunos, os funcionários – e conduzir a investigação aonde ela levar. A verdade é provisória é preciso criar coletivamente os fundamentos do projeto.  É preciso deixar de focalizar os indivíduos, para passar ao grupo como quem busca sua consciência de seu pensar. O que não quer dizer que omitamos as correções de métodos e procedimentos que se revelem incorretos para guiar o grupo. Mas mesmo aí, a metodologia é a da autocorreção.

Assim, na elaboração de um projeto político-pedagógico, os sujeitos estabelecem relações que são também relações políticas no momento de sua construção. O sucesso do projeto depende dos envolvidos  encontrarem o ponto de equilíbrio como comunidade política, onde o sucesso depende do equilíbrio entre as vontades individuais para o projeto, e as expressões de uma vontade coletiva. Ao aceitar a regra de fazer a contribuição no contexto das discussões de grupo,  significa o amadurecimento aos processos de funcionamento de uma comunidade. Se um argumento central do projeto político pedagógico for questionado, é preciso ser negociado de comum acordo no interior do grupo.  Ë preciso ter em mente que qualidades como tolerância, consistência, abrangência, abertura da mente, autocorreção, uso consciente dos critérios,  sensibilidade ao contexto e respeito por todos os participantes são qualidades exigidas do grupo como um todo, e não de indivíduos em particular. Numa discussão, brincadeiras são toleradas se produzem progresso no envolvimento e investigação do grupo. Se não forem construtivas – depreciativas, por exemplo – o grupo se autocorrige e elimina o comportamento. O silêncio é a forma mais empregada de fazer isso. 

O significado das trocas possível entre os diversos sujeitos depende da boa vontade em se envolverem na realização de um projeto político-pedagógico.  Além disso, é preciso que o projeto traga a discussão aquilo que é tradição da escola e da comunidade a que pertence. Somente incumbidos desse espírito, podemos vencer o medo atrás do desafio, a insegurança que acompanha a timidez. Precisamos nos olhar, ver, ler a expressão dos que falam e dos que não falam, interpretando o que estão ou não dizendo. Alguns ficam em silêncio por que não tem nada a dizer.  Outros são tímidos. Outro tem medo que suas idéias sejam desafiadas. Na medida em que os indivíduos se envolvem em monólogos, menos condições terão de construir juntos um projeto politico-pedagógico. Na medida que cada um faz pressuposições sobre o que a outro vai dizer, sem este dize-lo, bloqueiam a investigação. Se abrirem caminho para seus devaneios, bloqueiam a investigação. Na medida em que assumem falar pelos outros por medo ou insegurança, eles destroem a confiança essencial para a investigação em qualquer projeto.

Um dos propósitos do projeto político-pedagógico é trazer para dentro da escola a vitalidade de problemas e experiências que só a comunidade a que pertencemos produz. Sem essa vitalidade, o projeto político pedagógico é vazio e sem significado.  As perguntas que o projeto faz a escola e a comunidade não significam nada se não se está ativamente envolvido na busca  da compreensão da vida da escola. A tensão entre professores, alunos e pais pode causar conflito, mas ela mesma, não é um conflito. Falaríamos em tensão criativa produzida pela vitalidade de muitas relações e a forma da comunidade ou grupo tem de potencial para abertura, crescimento e autotransformação. Ao fazer um projeto, a tensão que provoca é dolorosa, e investigamos de forma comum, e não de forma dialógica.  Entretanto, o propósito do projeto político pedagógico é justamente restaurar a vitalidade da escola, trazer a alunos e professore, mas também pais para as relações mais significativas e profundas que a escola pode produzir. Segue-se, portanto, que o projeto pedagógico pensado a partir de uma realidade dialógica requer uma boa disposição para ser pertubardo e desafiado pelas ideais dos outros, um processo de construção ativa que usa critérios de abrangência, coerência e consistência, juntamente com a sensibilidade de cada um.

Como qualquer pesquisa, alunos, professores e profissionais de ensino tem suas próprias crenças com relação à realidade. Como cada crença é baseada numa anterior, é uma questão de buscar coerência entre nossas crenças e a correspondência com o mundo da escola. Mesmo frente às certezas que temos da realidade escolar,  é sempre uma questão contingente, aberto a revisão de juízos.

Assim podemos dizer que a comunidade escolar e seu entorno fornece um processo de comunicação que faz emergir o significado e os desejos para um projeto político pedagógico.  Cada participante pode dar sua colaboração, embora dentro de estruturas de organização e explicação que são mediadas pela própria comunidade no momento da elaboração de seu projeto.  Quando se está ativamente envolvido num projeto político pedagógico, a experiência subjetiva individual é um ponto de partida. Eles levam a construção de um projeto coletivo no qual se define o propósito da educação, as habilidades e disposições desejadas ao longo do processo de ensino, e forma a criar conhecimentos e emitir juízos práticos melhores, para transformar a aula tradicional.

A construção do projeto exige uma liberação progressiva do subjetivismo, do isolamento intelectual e social que a comunidade escolar  possui, de achar que a escola é um lugar sem objetivo definido, em direção a descoberta de que participar dos objetivos da instituição nos capacidade a valorizar a escola ativamente, de forma responsável junto à comunidade, ao invés de simplesmente, ir a escola. O projeto é como se abrisse uma porta a participação da comunidade e se tornasse o modo como esta descobre seu verdadeiro sentido.  Os participantes descobrem diretrizes educativas pelas quais querem viver  seu dia a dia em suas vidas. Eles adquirem a capacidade de pensar a escola de forma coletiva, sensível e adequada. Ao mesmo tempo descobrem a educação como necessidade coletiva – descobrem que podem criar junto às novas gerações.

O projeto político-pedagógico é um compromisso político que envolve uma comunidade de escolar num projeto explicito e de longo prazo. Encarnam um compromisso com a liberdade, na escola, nas relações entre pais, alunos, professores; encarna o compromisso com o debate e o pluralismo, estabelecendo formas de autogoverno da escola como prática da liberdade. O projeto que parte de uma investigação, pressupõe que as pessoas envolvidas com o processo escolar tenham um senso de diálogo e de investigação comum. Só na medida em que pais, alunos e professores têm a  experiência de dialogar como iguais, de participar da construção do projeto político pedagógico, é que a escola será capaz de, eventualmente, desempenhar um papel ativo na formação da comunidade. O projeto apenas dá forma a um conjunto de entendimentos e experiências compartilhadas, práticas diárias que envolvem também senso de afinidade aos fins da educação e as experiências compartilhadas nas diversas situações de ensino. O projeto nada mais é do que um projeto par a ação em comum na esfera pública.

Assim, para responder a pergunta, “qual é a base a partir da qual se constrói o projeto político pedagógico?”, podemos propor o entendimento da criação de uma base dialógica, de participação, de investigação comum, de reconhecimento e respeito mutuo pressuposto da comunidade escolar. Só assim o projeto político pedagógico poderá ser legitimo  e contar no seu interior o roteiro de trabalho que prepare a próxima geral para, cognitiva e politicamente se envolver na realidade da escola. Nesse sentido, a escola colabora então para ajudar a criança a questionar sua existência no interior de uma sociedade, esta também que visa ser democrática. Nos tempos de grandes transformações sociais, é crucial alimentar durante toda a experiência educacional, experiências coletivas que sejam capazes de demonstrar o modo político adequado a sociedade democrática, desejável a existir não apenas na escola, mas que tomam a escola, através do projeto, o ponto de partida.  

 



[1] Professor da disciplina de Políticas Educacionais da UNISINOS.

[2] Ilma Passos Alencastro Veiga consagrou estudos importantes nesse tema, especialmente Projeto Político-pedagógico(Ed.Papirus). Em Escola: espaço do projeto político-pedagógico, também de sua autoria, Rosilda Baron Martins apresenta o artigo “Educação para a cidadania: o projeto políltico-pedagógico como elemento articulador”. Nosso texto insere-se na perspectiva aberta por Martins.   

[3] Conforme Projeto Político Pedagógico, p. 13.

[4] A perspectiva de Martins,d e fato, é a da construção do projeto político pedagógico como projeto de cidadania.

[5] Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, Paz e Terra, p. 127.

[6] Capitulo 11, o ensinar e o aprender, p. 128.

[7] . Toda a sua extensa obra, mais de vinte livros publicados nas ultimas duas décadas, fazem da expoente da Escola de Budapeste uma referência incomum na filosofia contemporânea. Seu pensamento se coloca ao lado de contribuições tão fundamentais a filosofia contemporânea quanto Adorno, Horkheimer e Habermas. Sempre reivindicou a filosofia, uma filosofia aplicada aos problemas da vida cotidiana, "Para mudar a vida", como diz um de seus títulos mais conhecidos no Brasil. Numa obra abundante, onde se misturam questões éticas, sociológicas e históricas, Heller constrói seu sistema filosófico a partir de Aristóteles e das questões vividas em mais de cinqüenta anos participando dos principais acontecimentos mundiais.

 

 

 

[8] Michel Mafessoli, O nascimento das tribos.