TRABALHADORES NA ESCOLA: CONVERGÊNCIA DE INTERESSES OU OBEDIÊNCIA IMPOSTA

O processo de reestruturação produtiva vem introduzindo novos conceitos de produção que se tornaram alternativos ao taylorismo/fordismo. Estes novos conceitos disseminaram a idéia de que a mão-de-obra mais qualificada é condição sine-qua-non ao desenvolvimento do trabalho flexível e polivalente. Estas idéias baseavam-se no argumento de que apenas a introdução de novas tecnologias não garantiam, por si só, aumentos significativos na produção e nem garantiam a permanência no mercado em função da competição internacional.

As novas maneiras de organizar e gerir o trabalho têm incidido sobre os costumes e atitudes dos trabalhadores, ou seja, sobre a sua maneira de ser. Portanto faz-se necessário buscar conhecer os novos mecanismos de formação no trabalho e para o trabalho. Essas novas concepções inspiraram iniciativas empresariais voltadas para programas de educação básica visando a competitividade. Assim, a educação vem adquirindo centralidade para o processo de trabalho.

A empresa pesquisada localiza-se na Região CINCO (Centro Industrial de Contagem) em Contagem e caracteriza-se por produzir peças automotivas tendo como principal cliente a FIAT Automóveis. São peças rigorosamente controladas pela FIAT e portanto seu controle de qualidade interno, também passou a ser controlado durante todo o processo. Para que os próprios operadores passassem a fazer o controle do processo, foi necessário que a empresa introduzisse normas de controle de qualidade tais como Controle de Qualidade Total- TQC, Just-In-Time, entre outros. E para continuar fornecendo para essa multinacional teria que adquirir o certificado ISO 9002. Este é exatamente o momento em que a empresa sentiu necessidade de escolarizar seus empregados.

Em 1996, esta empresa deu início ao desenvolvimento de um projeto de escolarização básica e tem se mostrado um campo vasto de oportunidades significativas na nossa busca de realizar uma reflexão profícua a respeito das ações empresariais voltadas para a escolarização dos seus empregados.

É uma iniciativa patronal que visa dois objetivos. O primeiro é elevar o nível de escolaridade visto que 30% dos trabalhadores da indústria são analfabetos, outros 30% , embora tenham um pouco de instrução, não são capazes de interpretar manuais de trabalho e apenas 40% tem o curso primário completo. (MENDES: 1995) O segundo objetivo é possibilitar ao empregado construir uma base sólida de educação geral visto que esta é condição que precede os treinamentos em serviço e os programas de educação continuada. Assim, eles estarão preparados para a flexibilidade e para as inúmeras mudanças nos processos produtivos. Do ponto de vista da empresa, é possível verificar que existe a preocupação de desenvolver a capacidade criativa dos trabalhadores, embora esta nem sempre esteja relacionada à aprendizagem associada à formação política e crítica baseada na cidadania.

Trata-se de trabalhadores que não tiveram oportunidade de estudar em uma escola pública estadual, municipal ou mesmo paga, quando crianças e adolescentes, por diversos motivos. Primeiro por falta de recursos financeiros para pagar a escola privada visto que são trabalhadores provenientes de camadas pouco favorecidas. E o principal motivo refere-se à falta de vagas nas escolas públicas para esses trabalhadores porque o Brasil é um país que, por motivos que não cabem ser discutidos aqui, investiu pouco na educação pública e só neste final de século está tomando medidas mais efetivas neste sentido. Mas quando foram ampliadas as possibilidades de estudo na escola pública, estes trabalhadores já haviam entrado no mercado de trabalho. Então o problema passou a ser de inadequação das ofertas de vagas a um público que trabalhava.

A empresa organizou a escola na associação dos funcionários que é um clube cujas instalações eram apropriadas para o lazer dos seus associados. Ela adaptou e equipou a casa com salas de aula, biblioteca, secretaria entre outros elementos fundamentais em uma escola. Atualmente a casa, ou antigo clube, é pouco usada para o seu primeiro fim, o de lazer. Nem mesmo nos finais de semana se observa algum funcionário usando as piscinas, quadras ou outras dependências o que ajudaria a aliviar as tensões do dia-a-dia de estudo e trabalho. O espaço é mantido pelos trabalhadores associados mas administrado pela empresa que nomeia o presidente e a diretoria da associação.

Esta pesquisa tem como principal contribuição analisar, do ponto de vista do trabalhador, a experiência educacional desenvolvida na escola da empresa. Para tanto analisamos a fala dos trabalhadores buscando apreender o sentido e o significado dessa experiência que é fundamental para a construção de novas formas de se relacionar com o mundo e consigo mesmo, visto que o processo de escolarização introduz novos elementos na subjetividade dos sujeitos. A pesquisa de campo foi realizada durante três meses, de abril a maio de 1999, com visitas três vezes por semana à fábrica e à escola da empresa, procurando seguir e observar a rotina de trabalho diário dos operários. Usamos como instrumentos de coleta de dados a técnica de observação, entrevistas semi-estruturadas e inventário de saberes. Esse técnica foi construída e aperfeiçoada por Bernad Charlot e possibilita fazer um diagnóstico da experiência de escolarização a partir de relatos escritos pelos próprios trabalhadores-alunos. Ela entra no processo de ensino como uma atividade dos professores que colaboraram com a pesquisa.

As observações eram registradas in locu no diário de campo. Durante as visitas buscamos elementos referentes ao projeto de vida dos trabalhadores, que significado tinha para eles saírem da empresa e irem para a escola ou saírem da escola e irem para o trabalho. As conversas mais profícuas geralmente aconteciam no percurso que fazíamos entre a escola e a empresa e vice versa ou seja, do local de origem até o ponto do lotação e dentro do ônibus. Verificar o sentido e o significado atribuído pelos trabalhadores, àquela experiência, foi o primeiro passo para em seguida elaborar o inventário de saberes que foi fundamental para definirmos aqueles que seriam entrevistados. As entrevistas foram realizadas no último mês da pesquisa, com base em um roteiro previamente construído que foi sendo adaptado de acordo com as necessidades geradas pelas respostas do entrevistado. Foram entrevistados três trabalhadores-alunos que caracterizamos em linha gerais: um que vivenciava pela primeira vez, aos 54 anos a experiência de ser aluno, outro que durante toda a vida se esforçava para conciliar trabalho e estudo e não obtinha sucesso em suas investidas e outro que ocupava o cargo de líder e tinha o nível básico de ensino mas para não ser superado pelos seus subordinados, em relação à escolarização, voltou a estudar. É importante lembrar que todos estes trabalhadores-alunos estavam cursando suplência regular no nível médio de ensino. As entrevistas foram realizadas nas casas dos trabalhadores-alunos nos finais de semana.

A análise dos dados, até o presente momento permite concluir que no decurso do desenvolvimento da experiência educativa, o lugar que os trabalhadores ocupavam objetivamente no sistema das relações humanas mudou. A partir da vivência escolar o trabalhador penetra num mundo mais vasto de que se apropria de forma ativa. Assim, surgem novas necessidades como a de conhecer não apenas a realidade que os rodeia, mas igualmente o saber que existe sobre esta realidade. Tornando-se uma pessoa participante do mundo dos letrados os trabalhadores ocupam agora um lugar novo, a sua vida adquire um conteúdo novo e isto significa que vê doravante o mundo sob uma nova luz.

A primeira coisa que observamos é que a modificação do lugar que o trabalhador passa a ocupar no sistema das relações sociais não determina, por si só, a superação do desejo de aprender a ler e a escrever. O que determina diretamente o desenvolvimento de outras necessidades em relação à escolarização é a sua própria vida, o desenvolvimento dos processos reais desta vida, por outras palavras, o desenvolvimento desta atividade, tanto exterior como interior. E o desenvolvimento desta atividade depende por sua vez das condições em que ela se dá.

Isto significa que para analisar o sentido e o significado atribuído pelos trabalhadores à atividade estudar na escola da empresa em função da demanda da reestruturação produtiva, partimos da análise do desenvolvimento da sua atividade tal como ela se organiza nas condições concretas da sua vida. Só uma tal démarche permite determinar as condições de vida exteriores desses trabalhadores bem como das disposições que eles possuem. A partir da análise do conteúdo da atividade de estudar desenvolvida pelos trabalhadores foi possível compreender o papel primordial da educação que age justamente sobre a vida destes, sobre as suas relações com a realidade e determina também o seu psiquismo, a sua consciência.

Observamos que aquilo para que estava dirigido o ato de estudar na escola da empresa era a necessidade de obter o diploma exigido pela empresa, garantir o emprego constituía o motivo. Por outro lado, a apropriação do conteúdo que estava representado naquele certificado satisfazia, também uma necessidade particular que se referia à sua inserção no mundo. Muitos trabalhadores, após verificar que apesar da obtenção do diploma a empresa demite, não hesitam em deixar a escola. Isto deixa claro que o motivo que os incitava a estudar não era o desejo de saber enquanto tal mas apenas a necessidade de manter o emprego. O fim da escolarização não coincidia, portanto, com o que levava os trabalhadores a estudar. A escola não era, neste caso preciso, uma atividade propriamente dita ela era a garantia do emprego e não o estudo.

Assim, se o trabalhador estuda somente a partir do momento em que a empresa cria condições para tal, e ainda pára de estudar tão logo atenda às exigência da empresa, o ato de estudar não passa de uma ação, ou seja, um processo cujo motivo não coincide com o seu fim pois o fim da escolarização é possibilitar a apropriação do conhecimento acumulado e este fim imediato mantém uma relação determinada com o motivo da atividade que é preparar-se para o mercado de trabalho e garantir o emprego. O trabalhador começa a se conscientizar do dever de estudar para garantir o seu emprego. Mas o resultado é bem maior pois ele passa a se sentir mais prestigiado, sente sua alto estima se elevar. Produz-se uma nova "objetivação das suas necessidades, isto quer dizer que elas se elevam de grau.

 

PAINEL

TRABALHADORES NA ESCOLA: CONVERGÊNCIA DE INTERESSES OU OBEDIÊNCIA IMPOSTA

OBJETIVO: Analisar o sentido e o significado atribuído pelos trabalhadores, à experiência de escolarização na escola da empresa.

METODOLOGIA : A Pesquisa de campo foi realizada durante três meses, com visitas três vezes por semana à fábrica e à escola da empresa.

INSTRUMENTOS: Observação; 2- Entrevistas semi-estruturadas e, 3- Inventário de Saberes.

SUJEITOS DA PESQUISA: Trabalhadores-alunos da escola da empresa que estavam cursando suplência regular no nível médio de ensino.

DADOS DA EMPRESA: A empresa pesquisada localiza-se em Contagem/MG e caracteriza-se por produzir peças automotivas tendo como principal cliente a FIAT Automóveis. São peças rigorosamente controladas pela FIAT e portanto seu controle de qualidade interno, também passou a ser controlado durante todo o processo. Para que os próprios operadores passassem a fazer o controle do processo, foi necessário que a empresa introduzisse normas de controle de qualidade tais como Controle de Qualidade Total- TQC, Just-In-Time, entre outros. E para continuar fornecendo para essa multinacional teria que adquirir o certificado ISO 9002. Este é exatamente o momento em que a empresa sentiu necessidade de escolarizar seus empregados e organizou uma escola.

OBJETIVOS DESSA INICIATIVA PATRONAL. Elevar o nível de escolaridade; 2- Possibilitar ao trabalhador construir uma base sólida de educação geral visto que esta é condição que precede os treinamentos em serviço e os programas de educação continuada; 3- Preparar os trabalhadores para a flexibilidade e para as inúmeras mudanças nos processos produtivos; 4- Desenvolver a capacidade criativa dos trabalhadores, embora esta nem sempre esteja relacionada à aprendizagem associada à formação política e crítica baseada na cidadania.

MOTIVOS QUE INCITAM OS TRABLAHADORES A ESTUDAR: 1- Necessidade de atender à demanda da empresa em função da reestruturação produtiva e 2- necessidade de manter o emprego;

CONSIDERAÇOES FINAIS

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